Mitos sobre PHDA

Diariamente somos assolados pelas mais diversas fontes de informação sobre crianças, desenvolvimento infantil, perturbações, temperamentos e características comportamentais dos alunos de hoje em dia. Uma das siglas que nos invade frequentemente, tanto em slogans, outdoors publicitários, folhetos, posters farmacêuticos, como sendo parte integrante de diversos títulos de reportagens, é a sigla PHDA – Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção. Mas, o que é afinal a PHDA? Apesar das enumeras investigações científicas na área, cada vez mais diversificada e com metodologias cuidadosas, há mitos que tendem a persistir e a perpetuar-se até à atualidade. Neste artigo, procuramos esclarecer alguns mitos e contribuir para dar resposta a questões tão prementes como a classificação da PHDA, enquanto verdadeira perturbação do desenvolvimento.

 

1º Mito: A PHDA não é uma perturbação médica real

Não é verdade. A PHDA é uma perturbação do desenvolvimento, legitimamente reconhecida pelas organizações mais distintas nas áreas da medicina, da psicologia e da educação, quer a nível nacional, quer a nível internacional. A sua classificação, descrição e respetivos critérios de diagnóstico, estão presentes no principal manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais, DSM-V, elaborado pela associação Americana de Psiquiatria. A PHDA tem uma origem multifactorial, sendo que várias investigações dão sustentação a uma base neuropsicológica, onde se assiste à conjugação de fatores biológicos com as experiências do individuo nos seus contextos de interação. Alguns sinais de alerta tendem a caracterizar-se por dificuldades na manutenção da atenção, impulsividade e, às vezes, por excesso de atividade motora. Tais comportamentos têm impacto tanto no quotidiano de crianças e jovens, como a nível do seu desempenho escolar, a nível da sua interação social, com repercussões na atmosfera da família.

 

2º Mito: A PHDA resulta de uma má educação e de estilos educativos parentais deficitários

Não é verdade. A PHDA é uma perturbação real e afeta, na maioria das culturas, cerca de 5% das crianças e 2,5% dos adultos. A dificuldade manifesta-se no incumprimento de regras e de normas, assim como na irrequietude constante destas crianças e jovens, sem que estes comportamentos possam ser atribuídas às especificidades da educação ou do estilo educativo parental, pois ultrapassam os padrões de parentalidade, centrando-se numa fragilidade ao nível da autorregulação comportamental. Ao contrário do pensamento vigente ou mesmo do senso comum, as crianças com PHDA não cumprem determinadas tarefas ou não acatam determinadas regras, porque não queiram ou porque não saibam o que devem fazer, mas sim por causa de uma incapacidade em cumprir, apesar do esforço que muitas vezes aplicam à concretização da atividade.

 

3º Mito: A PHDA é o resultado de uma ingestão exagerada de açúcar por parte das crianças

Não é verdade. Na realidade, muito se tem falado dos efeitos da ingestão do açúcar no cérebro e das possibilidades de integração da referida ingestão em quadros de dependência ou de comportamentos mais extremados, caracterizados pela adição. As investigações conhecidas na área da PHDA não corroboram a teoria de que o açúcar possa estar na origem desta perturbação desenvolvimental.

 

4º Mito: A PHDA é a designação moderna para crianças mal-educadas e preguiçosas

Não é verdade. A PHDA é uma perturbação com um quadro diagnóstico concreto e diferencia-se, em larga escala, do efeito de determinado estilo educativo parental, ou mesmo de um comportamento pautado pela falta de investimento. Na realidade, alguns comportamentos característicos de uma criança com PHDA, quando não devidamente analisados, podem facilmente confundir-se com preguiça e má educação uma vez que sobressaem as dificuldades no cumprimento de regras e normas, a emergência de birras e a manifestação de desinteresse nas tarefas. As crianças com PHDA apresentam uma dificuldade efetiva na concretização de tarefas que exijam um longo esforço mental e na antecipação das consequências dos seus atos.

 

5º Mito: A PHDA afeta unicamente os rapazes

Não é verdade. A PHDA tanto surge em rapazes como em raparigas. No entanto, é verdade que o seu diagnóstico é mais frequente no género masculino, seja em crianças ou em adultos. Nas crianças a relação é de 2 rapazes para uma 1 rapariga e, nos adultos, a relação é de 1,6 homens para 1 mulher. Os quadros sintomáticos tendem a ser diferentes ao nível do género, sendo que o feminino apresenta mais sintomas de desatenção do que o masculino.

 

6º Mito: Só as crianças com hiperatividade é que têm PHDA

Não é verdade. A agitação motora faz parte de um percurso desenvolvimental saudável. Por conseguinte, só quando a agitação motora se torna exacerbada, capaz de influenciar negativamente os vários contextos de interação (casa, escola, sociedade em geral), tornando-se por si só desadaptativa e comprometendo o desenvolvimento global da criança, é que podemos estar perante um quadro de perturbação. Por seu turno e apesar da hiperatividade se apresentar como um dos sintomas mais prementes e comuns de uma PHDA, uma criança pode ter o mesmo quadro diagnóstico mas sem a presença deste sintoma. Tal facto deve-se às vários tipologias/subtipos de PHDA.

 

7º Mito: As crianças que usufruem de condições especiais na escola devido à PHDA recebem injustamente vantagens educativas relativamente aos seus pares

Não é verdade. Uma criança que apresenta um diagnóstico de PHDA tem fragilidades sobretudo ao nível da manutenção da atenção e, consequentemente, apresenta dificuldades na capacidade de concentração. Pode também manifestar dificuldades ao nível da autorregulação comportamental. Ao integrar estas crianças ao abrigo de um estatuto de necessidades educativas especiais, estamos a conferir-lhes ferramentas e estratégias o mais adequadas possível ao seu perfil, para que consigam estar num nível similar ao dos seus pares, sempre numa perspetiva equitativa e inclusiva do processo de ensino-aprendizagem. Em síntese, o objetivo não é beneficiá-las, mas diminuir a sua desvantagem, à partida, relativamente aos seus pares.

 

8º Mito: A PHDA passa com a idade

Não é verdade. A PHDA tende a apresentar-se como uma condição de vida, revelando cronicidade e evolução ao longo da mesma. Os sintomas tendem a alterar-se, verificando-se em alguns casos diminuição ao nível da agitação motora. Os sintomas inerentes às dificuldades na atenção, autorregulação comportamental e impulsividade tendem a persistir no tempo ou mesmo a agudizar-se. Quando não diagnosticada atempadamente a PHDA pode originar outras dificuldades.

 

9º Mito: A ritalina é a cura para a PHDA

Não é verdade. A ritalina é considerada um psicoestimulante cujo princípio ativo é o cloridrato de metilfenidato. É o medicamento mais comumente utilizado no tratamento da PHDA e pode ajudar as crianças a melhorar a sua atenção e concentração, e a diminuir o seu comportamento impulsivo. Este fármaco é utilizado como parte integrante de um programa de tratamento, que tende a incluir terapias e estratégias cognitivo-comportamentais centradas nas áreas da psicologia, educação e na área social.

 

10º Mito: A toma de ritalina origina um atraso no crescimento das crianças

Não é totalmente verdade. De acordo com algumas investigações e segundo o INFARMED, a utilização de metilfenidato por um período superior a um ano pode originar um atraso no desenvolvimento de algumas crianças. De acordo com o INFARMED este efeito secundário afecta menos de 1 em 10 crianças. Daí a necessidade premente de supervisão médica aquando da utilização do referido fármaco.

 

11º Mito: A PHDA não está associada a outras perturbações

Não é verdade. A maioria das crianças com PHDA tende a apresentar outras perturbações associadas, mais especificamente perturbações de humor, perturbações de ansiedade, perturbações da conduta e dificuldades de aprendizagem, que se manifestam isoladamente ou em conjunto.

 

12º Mito: A PHDA pode ser tratada através de ervas e vitaminas

Não se sabe. As várias notícias ilustradas nas mais diversas revistas, jornais e outras tipologias informativas que retratam curas milagrosas para a PHDA são divergentes da realidade cientifica, ou seja, os estudos científicos na área não comprovam as referidas metodologias, não havendo por isso ainda sustentação a este nível.

Artigo publicado pelo Sei – Centro de Desenvolvimento e Aprendizagem.